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“O motivo é uma incógnita, mas os oncologistas estão convencidos do aumento do número de casos de câncer da mama em mulheres abaixo de 35 anos – faixa etária em que esse tipo de tumor não é esperado. A maior prevalência da doença, principal causa de morte entre as brasileiras, ocorre a partir dos 50 anos.Levantamento preliminar do Hospital do Câncer de São Paulo, entre agosto de 2003 e agosto de 2004, diagnosticou 84 casos de câncer da mama em mulheres com idade inferior a 35 anos. Esse número representa 16,8% do total de casos novos de tumor mamário que a instituição atende por ano. O esperado seria de 5% a 7%.Dados do Inca (Instituto Nacional do Câncer) e da Fundação Oncocentro de São Paulo, que reúne informações de câncer de 54 hospitais paulistas, mostram que as mulheres jovens (abaixo de 40 anos) respondem por 15% dos casos da doença. Neste ano, é esperado um total de 467.440 novas ocorrências do tumor no país.A dúvida agora é saber qual é a razão desse aumento. Trabalhos realizados no Rio de Janeiro confirmam essa tendência e supõem que fatores ambientais (poluição, por exemplo) e mudanças no estilo de vida da mulher moderna (como o estresse, a menarca precoce e a gravidez tardia) possam estar envolvidos nesse fenômeno.No próximo mês, o Hospital do Câncer e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), juntamente com outras quatro instituições, inicia uma pesquisa inédita no país com objetivo de levantar os possíveis fatores de promoção do câncer da mama em mulheres jovens e as relações entre as ocorrências.“Está havendo um aumento significativo de casos e querendo saber o porquê”, afirma Mário Mourão Netto, chefe do departamento de mastologia do Hospital de Câncer de São Paulo.O médico diz que o maior interesse da pesquisa é a apuração dos fatores de risco não relacionados à hereditariedade ou à história familiar da paciente. Apenas um a cada dez casos de câncer da mama tem origem genética.Dos 84 casos analisados pelo Hospital do Câncer, 20% tinham antecedentes genéticos ou familiares.Em geral, o tumor na mulher jovem é mais agressivo. Porém, as chances de cura são de 90% quando o caso é diagnosticado precocemente.Segundo Marco Porto, chefe da divisão de atenção oncológica do Inca, o aumento dos casos ainda não pode ser sentido pela série histórica do órgão, mas tem sido freqüentemente mencionado pelos médicos. “Pode ser que, estatisticamente, isso demore um pouco para aparecer.”O mastologia Antonio Frasson, do hospital Albert Einstein e professor da PUC de Porto Alegre, atribui o aumento dos casos ao crescimento da população e à melhoria dos métodos de diagnóstico, como o ultra-som e a ressonância magnética.“A procura de avaliações de rotina está maior e, com isso, estamos conseguindo detectar esses casos previamente”, afirma.Para Diógenes Basegio, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia, só a melhoria do diagnóstico não justifica o aumento da ocorrência no público jovem. “A mudança no estilo de vida, como o estresse, os filhos em idade tardia e uma maior ingestão de bebida alcoólica podem estar influenciando nesse aumento de casos”, afirma o médico.Os mastologistas também estão preocupados com o desconhecimento médico em relação ao câncer precoce. “Há casos em que pacientes sentiram o tumor mas o ginecologista disse que não era para se preocupar”, diz Frasson.Embora a maioria das alterações na mama jovem seja benigna, qualquer nódulo que apareça no seio da mulher precisa ser investigado por exame clínico e ultra-som da mama. Se houver uma lesão suspeita, é indicado a ressonância magnética e a biopsia”.
Cláudia Collucci
Folha de São Paulo (05/06/2005)
Cotidiano pág C1 |